Wednesday, September 20, 2006

Uma folha descaída – Gota De Orvalho

Mergulho no telhado de chuva. Caiem pétalas do céu a pintar o meu corpo dorido. As sobrancelhas do caminho proliferam misturas que a noite sossega nos laços das enseadas coloridas. A roda alternada de um pé a seguir ao outro, o escorrer do perfume pela pele molhada. Este desejo húmido de livremente absorver o cheiro contagiante da pureza. Ando em direcção casa ouvindo a suavidade das cores, cicatrizando a ausência de movimentos nas linhas do alcatrão. Pelo passeio as vozes aparecem por entre as gotas da chuva, o chilrear duma bicicleta ferrugenta rabisca o ar, o cigarro acesso no vício das grades. A iluminação sufocante cobre as poças, formando uma irradiação de círculos, um pingar constante de leveza. Nos muros das casas as flores com os seus tons diversos, derramam a cor das bolhas. Cachos de vermelho, rosa, roxo, com as folhas de verdes diferentes a abrilhantar o socalco das pedras da parede.
Magia da fragrância insaturada duma figueira penetra em mim o seu doce fumo da folha rude, de toque retalhado. Olho para o alto, o chuveiro infiltra-se no triângulo de azulejos, amarelados em semicírculos. A janela assemelha-se a uma aranha, com os vidros rasgados pela madeira. Na cor do refúgio da aranha expande-se uma cor vermelha esbatida nos reflexos. Quase sinto o feitiço de ver uma pessoa a aproximar-se para ver o canto da rua, mas meus olhos fogem para o alto, para a lua. Descaio, caio...
Minha face descai num derreter contínuo, enquanto que os pés marcham calcando a alegria de me molhar. Pego no isqueiro, ergo meu braço e abafo minha cabeça, acedo o fogo do asilo na ponta das folhas enroladas. Corro, cantando músicas de improviso...In The rain of my house...O fumo invade as veias de sangue num tormento de água. Sento-me num banco à espera duma pedra de granizo. Só pingos mais grossos absorvo. O único sítio que não estava molhado, meu rabo. Agora posso dizer que a chuva me pertence no mexer inválido da inviolável permuta de lacrimejar. Distribuo a claridade às gotas de orvalho...Minha ousadia queima meu rosto...Torço a roupa...Rajada de rasgos...

Uma folha descaída – Suaves Toques

As bolas batem no eco da sala. Os tacos deslizam por cima do tapete. Um som quente invade as sete mesas, onde as cores das bandeiras descaem na bancada. O estalar contínuo dos dedos perpetua o giz nos tacos. Sente-se os segundos a reterem o tempo. Relógios que no seu compasso descem, e sobem nos pés que passam pela carpete.
Três bolas em cada bilhar, dos quais alternadamente se joga. Naqueles que estão vazios a sombra dispõem-se ao comprido na mesa onde as bolas, vermelha, branca e amarela, são iluminadas num quadrado. Traços bem definidos de contacto intimo, a espectacularidade do roçar da essência.
Movimentos sensuais na delicadeza do “suspense”. O toque masturbativo a deslizar no comprimento do taco. Dentro das almas os corações ecoam, na transpiração húmida da água a arder pelo interior. O deslize da suavidade, do toque de acariciar os pedaços esféricos, no retorno abrasador das luzes que queimam a partir do tecto da sala.
As pessoas ficam com os olhos retidos na mesa número 3, onde joga um Português, Mário seu nome. Homem com pelo menos 60 anos, calvo, com ar Britânico do século XIX. Transpiro nas suas faces o espelhar da angústia de vencer. Seu adversário, um Turco de feições elegantes, com um toque nos efeitos na bola que me surpreende. As bolas dele contorcem-se, a desejar que uma mulher o leva a entregar-se, um rolar de melodia. Não gosto de turcos, mas simpatizo com este…
As bolas fogem no buraco da agulha, ouvindo o fumo a tilintar nas esferas. Outras esbatem no bater da sorte. O vibrar do Amor dos tacos a espirrar, em cada posição sentir o prazer, do dorso se aninhar junto ao taco, penetrar os segundos de harmonia. O “Britânico” vence com o trevo de quatro folhas na mão.
As bancadas estalam de euforia, no rebuliço da multidão, o balbuciar de sons levantam as ossadas dos acentos. Deixo meu corpo repousar no vazio da sala com as luzes a submeterem-se à escuridão. Fora da sala os corpos estremecem nas variadas línguas, nos cigarros que me fazem lembrar o sabor dos lábios do meu prazer…Aguardo que o silêncio se ponha nos corredores do êxtase...Aguardo relaxando a mão na tinta que corre, mas o contínuo levitar continua, na incessante pureza de não haver barreiras em ouvir a musica.
As notas de leveza adocicam a escuridão da sala. Pego nas amêndoas de chocolate, para desfrutar na língua enlaçada a mistura. Enrolo o som musical no visionar das arestas dos quadrados com as bolas no seu centro. Sonho em esticar os braços do desejo até à mesa…Rasgo-me para fora da sala com a minha mochila. Dou uma vista de olhos pelos panfletos. Um empregado tem os olhos postos na mochila...Meu ar de cigano acusa-me…Tenho uma bomba…no coração…

Uma folha descaída – Natureza Selvagem

Na parede do quarto elevo o som do CD. A música fura as línguas sagradas do tempo, a verter os pedaços do odor da noite. As horas cortam a navalha das letras com pinceladas de algodão, na homenagem do virgem perfume. Inalo o vento à janela, as estrelas caem nos meus cabelos. Arrasto o charuto pelo fumo a esvoaçar no calor retido do dia. Sento-me na cadeira a vibrar, ao olhar o quadro. Os rasgos das cores espalham-se no infinito do olho, arde o sangue negro nos cantos da tela, o fundo vermelho de raios solares, caio fundo, defunto na vida. A garganta arranha da febre na testa, o calor sobe pelo corpo seminu. Extraio uma colecção de cassetes cheias de pó num poço pouco profundo de sons. Começo a ouvir uma à uma. O som distorcido parece que apagou a memória das notas tocadas a décadas atrás. O antiquado foi riscado, apagado sem eu me ter apercebido. Deixei-as guardadas a um canto, e quando queria que elas me penetrassem no interior já elas não estavam prontas para ser ouvidas. Das cassetes que tenho, 4 delas foram-se. Pego nelas, puxo-lhe as fitas, e adorno o quadro em teias que cobrem de lado a lado cada espaço do dormitório. Como gostaria de ser uma aranha para poder caminhar por estas veias traçadas neste labirinto. Em cada cruzamento há uma possibilidade de ir ao outro lado do quarto. Fenomenal...
A minha tosse começa a incomodar-me, nem o chá de tília fez efeito. Talvez um leite quente ao cair da noite me adoce as tripas. A terra do germinar apadrinha o manto que vai acolher minhas filhas. Ainda pensei ir ao cemitério recolher lá a terra, mas ainda me nasciam abutres sem asas. Ponha minhas mãos junto à terra, escavo pelo meio furando até ao fundo do saco. Retiro-as suavemente, deslizando os dedos na leiva. Pouso incenso junto à terra, enterrando o pau lá dentro na esperança de perfuma-la num aroma característico. Tenho o corpo dorido, a alma espessa, o ar a regar o fumo do leito. Um novo dia virá e novos escravos de demónios virão.

Uma folha descaída – Piscar os Pés

Atrai-me árvores dispostas em linha em ambos dos lados duma avenida. Uma coloração de verdes claros e escuros que a Primavera promete todos os anos dar. Acompanhado com um sol matinal marcho neste sossego, afunilando cada artéria, percorrendo com os olhos as fachadas. Finalmente soube onde era a PIDE no Porto, transformado num Museu militar onde em exposição no jardim se encontram canhões do século XVII. Sempre me fascinou, mas num contexto diferente, os homens balas do circo. Estar metido dentro dum espaço tão minúsculo e depois ser libertado, projectado para voar, para rasgar o ar. Uma sensação de nadar fora da água, mergulhar em tonalidades de azulejos espalhados no chão.
Pela rua fora observo a depilação do peixe feitas por mulheres vestidas tradicionalmente. Em aventais de quadrados espaçados, com um bolso à frente onde guardam o dinheiro. Sardinhas, solhas, enguias...Na janela um gato aproveita os raios de sol, lambendo-se a esquartejar cada membro. Da parte de fora as pombas amontoam-se no beiral do telhado, até que uma esvoaça até à janela onde está o gato, na parte de dentro. A pomba descontraída começa a picar a madeira adjacente à janela sem se importunar com o gato. Uma simbiose difícil, e conseguida apenas devido a uma barreira. Se calhar se não tivesse essa barreira o gato aconchegava suas garras ao pescoço da pomba para lhe fazer umas festinhas. Mas como já vi gato e cão comer juntos, não me admirava nada a coabitação entre uma pomba e um gato, depende sempre da fome ou ausência dela.
Repouso junto ao Repouso, nuns bancos a olhar as palmeiras no céu azul que aos poucos o cinzento das nuvens abocanha. As famosas gotas de água que vem sempre na recordação. Continuo a minha caminhada, de percurso pouco definido até me enfia num elevador. A primeira porta fecha-se, a segunda deixa-me sem ver o exterior. Subo até ao quinto andar....Fico preso...

Uma folha descaída – Rabiscos de Letras

Olho para o céu claro com nuvens a fazer rabiscos nesta tela. O calor arde no inferno de brasas, em que meu corpo absorve o peso dos raios de sol. Sequestro uma árvore de ramos finos, que formam uma coberta de perfume. Aconchegar a árvore, um banco para me tocar. Caio em cima dele com estrondo, até minha alma fez eco ou pelo menos o coração deve-se ter deslocado do seu local. A cor desbotada da madeira, a dor rasgada de lâminas que passaram nos sulcos das veias, a visão de âncoras que ficaram outrora retidas neste lugar. Apenas olho para cima, para o lado escuro do tempo. Em cada espuma faço bonecos de neve, desenhos de castelo, setas, cordas, etc.Mil e umas coisas, que até fecho os olhos para ver além deles. A serenidade do berço faz-me rebolar paisagens distantes, em épocas que os passos da terra serviam para cultivar as flores, a esgrima da luta das pétalas do rio a correr. Apareço num mundo distante, onde cada sopro era vivido na intensidade de ser o último. Estou agarrado a este banco, mas a minha alma está longe dos pedaços de madeira que seguram o corpo, tão longe que os meus dedos a rasgar o chão, remam, para o infinito das nuvens. Sou um barco à vela estendido ao ar, ampliado nos remos das vertigens da maré baixa. Abro a camisa para sentir os ossos das costelas, soltar-me na frescura da aragem. Repouso vendo o sol baixar no horizonte, vendo as pessoas a vislumbrarem esta ousada pendurada nos remos.
Hoje apeteceu-me trazer o canivete. Houve um tempo que o tinha sempre pendurado junto ás chaves. Acabei por partir uma ligação que tinha, e ficou abrigado em casa no tempo restante, só saindo em situações esporádicas. Ergo-me e busco nas calças o canivete que tinha afiado antes de sair de casa. Ficou de tal forma, que bastava passar de leve a lâmina por uma folha que ela se abria toda. Penetro a madeira, estala a tinta, o rasgo entra na superfície e vai sufocando de prazer os pedaços que saem do interior. Começo a escrever o abecedário num círculo em que as letras convergem para o centro, numa espiral de movimento. Acabo por não chegar ao fim das 26 letras...fiquei na letra...Por entre as folhas do chão, que já deixaram de ser da cor do Outono, busco pedras para poder circunscrever o círculo de letras. Formo um esquema de cor diverso, formatos diferentes numa mistura cinzenta acastanhada. Fico de pé a olhar o esboço do templo enquanto penso no vermelho do horizonte. Uno as pedras na minha mão, levanto-as ao lado e deixo-as cair no banco. O destino está traçado. Vou embora. Voltei de novo lá para mudar umas pedras do local onde ficaram...

Uma folha descaída – Queen of the Night

O vaso transborda quase até ao topo, de água, com as minhas filhas a quererem voarem para dentro da terra. Não sei se o frigorífico congelou o interior, ou se as machuquei com H2O a mais. Elas ficaram abaixo da temperatura pedida, 5 e 10 graus que era a recomendada. Devo ter posto talvez pelos 3 graus positivos. O aroma dos poucos alimentos não se deve ter misturado para dentro da água, não sei se isso afectará o crescimento. Até tinham um pouco de bolor em certas zonas do bolbo. A temperatura já vai alta para a flor em si, o sol queima nas paredes, o pólen já penetra nas miragens.
Rasgo a terra dentro dos vasos formando uma cova. Tenho 6 bolbos, 3 vão ficar num vaso e os outros três um em cada vaso. Atiro umas gotas para o fundo, embriagando o bolbo nas raízes. Eles parecem com pujança para saírem fortes do ninho que os vou meter. Agora parece um ritual de manhã, à noite vou ver como elas estão, cuido delas. Vi-as espreitarem à luz logo no dia a seguir as ter plantado. Com alguma timidez mas com vontade de crescerem acarinhadas. O sol ajuda-as a elevarem. Uma delas que nasceu primeiro, o caule que começou roxo, agora começa a desfolhar-se e a deixar que o verde suba. Toco nelas com suavidade todas as vezes que as vejo, talvez com carinho a mais. Sentir a frescura a regar-me os dedos. Estou ansioso para ver a flor...Abraçar o cheiro...

Uma folha descaída – Beltane

A noite está a pôr-se nos meus ombros. Sinto o arrefecer nostálgico da aragem das folhas, das agrestes pegadas do fumo suspenso, o pedal retido nos pés. Cruzo zebras atrás de zebras até ao palco onde o som irá voltar aos meus murmúrios. Numa delas observo como a loucura irá nesta escuridão surpreender-me. Um muçulmano fica no meio da passadeira com o sinal verde, eu passo, ele continua lá parado até que o sinal vermelho aparece. Ele parado lá fica, a olhar para o céu, sem sentir que um carro quer passar. Nem a pessoa do carro se importa. Começam a rir lá de dentro. Restos de vestidos leves que degolem a estagnação. Delicio-me nesta brandura de esperar, mas o meu caminho hoje não é ficar neste lugar. Percorro as pedras calcadas, o Beltane vem aí. Arregaço os punhos do rio, da lua, com a vontade de me sentar nela e desfrutar o baloiçar das suas extremidades. Capto essa imagem, e guardo no templo das recordações. O rio transmite-me frescura, os peixes deambulam, as correntes misturam-se em círculos distorcidos. Ouço o chamar das notas em janelas de água que remam na espuma.
Entro docemente pela porta, na flutuação de aflições, nas cores de fogo de pautas…Duas bandas para ver, a escuridão a tapar o chão. O palco pintado com uma caixão em que mais tarde percebi que tinha uma criança dentro. Phantom Vision num toque semi-erótico do êxtase esmagado, entre linhas negras, punk, electrónico e decadente. A língua entrelaçada na vara do micro a dormir o sono do inferno. O momento alto da noite virou-me do fundo para o topo da imaginação. Um ritmo contagiante, nos malabarismos de fantasias, em poções regados de notas soltas, de lábios femininos que se tocaram no fundo. Agreste vírus das maldições que cortam as veias de magia. A embriaguez do fumo a penetrar a sala, no qual as pessoas têm os corações presos na viagem. Voam as doces melodias para transpirar de lágrimas. Passado de quase duas horas de prazer, o som fica retido dentro de cada ousada a sufocar de odor. Fico à espera que a sala fique vazia para penetrar na noite, só ouvindo o cheiro das águas...
Os passos da minha mente troteiam uma canção dos Clan of Xymox, There is no tomorow. E no fim da linha quando cansado de ficar de pé passo por duas pessoas, em que uma delas me dirige a palavra. Uma mulher de carapuço de lã e um homem preto embriagado. A mulher pede-me algum dinheiro para poder ir a um bar. Dei-o sem hesitar, o que não é meu hábito. Chorava de alegria, ou um choro de quem ia ter de encontro a um sonho. Fomos andando os três pelas ruas fora. Três monólogos. A mulher falava da sua música, do seu som, do tempo que não passa, das viagens que em Portugal fê-la deambular, da vida somente a ela pertencia. O Homem preocupava-se com o Amor, das relações entre homem e mulher sem sucesso, de estar alcoolizado e não admiti-lo. E eu...eu pouco falei...queria saber mais deles...falei um pouco do concerto que fui ver...Três monólogos em ruas desertas, a escapar para cada toca...Separamos num cruzamento de quatro lados, um deles ficou sem preencher. Quem teria faltado? Talvez a harmonia, talvez...ATCHIM! ATCHIM! ATCHIM!...


Clan of Xymox – Farewell – 2003 - There´s no tomorrow

I wake up in the dark, there’s no tomorrow
Someone said, we are lost
I wake up in the dark, there’s no tomorrow
Someone said, we are lost
I look up at the stars they portent my sorrow
A thousand miles we drift apart
Can’t you see I’m all broken hearted
All our love fades away
Carry the torch for me and give me something new
You said you wanted to but it’s now long overdue
At the summit of perception a blackness starts to rise
At the summit of deception I look into your eyes
I gave you all my love, where did you follow?
I see no light in dark, there’s no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I lost you on the way, all seems so hollow
In the twilight of our dreams, as bad as it seems
Sorrow ’s hanging over me, the way it used to be
If only I could change the course, a change in degree
Take a look at your own life, the way you used to be
Carry the torch for me and give me something new
You said you wanted to but it’s now long overdue
At the summit of perception a blackness starts to rise
At the summit of deception I look into your eyes
I gave you all my love, where did you follow?
I see no light in dark, there’s no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I lost you on the way, all seems hollow
Can’t you see? all comes backCan’t you see?, we don’t connect
I gave you all my love, where did you follow?
I see no light in dark, there’s no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I gave you all my love, where did you follow?

Uma folha descaída – Grãos de Areia

Um fio de rio na areia espreguiçada a descair nos dedos levantados ao alto, é o que este anoitecer me faz acariciar. No altar mora a espuma desconhecida sulcando miragens de castelos feitos por crianças. Estremecidos nas conchas o vento não pára de bater, a rasgar as curvas destorcidas, a pulsar de emoção. Os grãos de areia são arranhados pelos dedos frágeis que caem, e se afundam na humidade do vaivém das águas do mar.
Risco no céu dourado, cores espalhadas no horizonte, na Rua da meditação, na inocência quebrada, no licor que derrete em céu de mar. Envergonhado pela timidez dos contactos, o rosto volta às profundidades do areal. Arranco grão atrás de grão, escavo tão fundo que deixo de ver a minha mão. Remexo docemente em solo duro, repousando o resto do corpo de lado, estendido, para o castelo. Fico com as cicatrizes, somente com elas, agarrando o meu peito do ardor duma gargalhada. Atordoados frutos da minha mão que se inclinam neste altar, escorre nos cabelos, nas costas, para dentro de mim...Fogo agreste...
Permaneço no esplendor das coisas mais simples, nos actos que em si são mais puros. Roubo a imagem à natureza, ou apenas um pequeno empresto, não o sei. Sei somente que dos frutos do fruto não pode não florir a semente. Só irá nascer um novo amanhecer, e depois um anoitecer. Esse é um dos ciclos das mãos. Não posso tocar em toda a areia, só ela é que pode tocar toda em mim.

Uma folha descaída – Gelo espalhado

A fraqueza dos caminhos cai nas pedaladas do tempo. Roma ali tão perto e a roda aqui a florescer de escurecimento. Por onde se vira e rodopia, existe as chuvas de pedras que caem no uivo surdo da paisagem. Há certos momentos que os sons do silêncio, dos rasgos sem sentido, das palavras que não saem, dos gestos esquecidos nas asas depenadas, que gira em torno de obstáculos de vitrais fumados...Gelo espalhado pelo mar num barco desgovernado a bolhar, um olhar cada vez mais embalsamado, a montar tendas fragmentadas...Não há remos nesta transpiração, apenas um sono de barbas que não arranha as ilhas desertas. Todos os dias são dias iguais, sem mistura, sem o dom de haver fogos de artifícios. Puxo os cordéis de espuma, liberto fósseis e as velas rompem-se na brisa. Como é possível haver do monte de roma uma onda de telhados estagnados?...E do outro lado fazer a sobrevivência um corte, uma ajuda de fogo nos dedos da mão...A força da dança escondida no meu bolso a centenas de quilómetros de onde de uma das minhas saudades fica parado nas penas a esvoaçar...Não consigo...Talvez...Tenho as mãos em gelo.
Matéria de sono adormecido, em que nas trepadeiras arrancadas não consigo olhar para o tecto. As questões de genes que pecam pelas deformações das cores e do seu substrato. O corpo pintado de ferrugem perfuma os pés paralisados a adocicar os paralelos do caminho. Não sei como os galhos conseguem fazer descair os remos das letras simples. Sei somente que os cabelos estão secos da inocência amaldiçoada.

Uma folha descaída – Parabéns

Galopar nas nuvens, ali, aqui...trota, trota, o galope de cabelos soltos. Ao vento do som dançante; canta, canta, canta. Cada arpão que sobrevoa as pisadas dos tempos intemporais. Sente-se os sons das léguas, de espaços apertados a cortar o vento...rasgos fortes de sonhos que chorariam da planta para o vaso, com olhos arregalados a medrar...Quieto e pausado, enche-se canteiros de cataratas, pisadas fortes a rebolar em balões que sobem, descem na pele, adormecem em sonhos de serpentinas...Um turbilhão de segmentos a piscar o remoinho das peugadas...descaem em pingos....Cai delgado no espaço ténue de velas...O brilho da transparência, a lã desfiada em socalcos da imaginação, um corredor de espuma para celebrar o orvalho perfumado...asas de intuição ou perfeição? Parabéns!
E hoje a chuva caiu. Fi-la cair das estrelas...

Uma folha descaída – O que vai mal?

O que vai mal? Pergunta tão discreta e directa. O dom de responder com um toque esfuma-se na ilusão, e nos dedos afiados. Os perfis de letras atrás de letras compõem a sonata da resposta. Adormeço nela, como a devoro a seguir. Sim continuo a amar o vento, não por obrigação, mas sim por pureza. Se é um mal, então sulco por esse rio. Se não transmito directamente, indirectamente está lá no cantinho dos Pés. Mal estou eu se não escrevo da essência.
Um dia fugirei para lado nenhum porque desse lado nenhum vim eu, riscado ou degolado desse mal sofro. Na ausência pautado de buracos esfomeados, os galhos que aprecem à minha frente vêem a Alma assustadora dum corpo vestido de negro. Não me aceitam, paciência. Vivo desse rio metido num livro, a correr pelas veias do destino, amargo, verdadeiro e sem véus nublados para tapar o que sou. Caminho só na minha inocência, a partilhar correntes de fogo com o ar.
Do fraterno olhar meus olhos não os vê juntos há demasiado tempo. Esse Amor dos pais encontra-se na gruta, onde cada pérola é para ser acariciada. O mal está em que não pode ser levado a um caminho extremo. Porquê? O meu ser é demasiado libertino. Há essências que são chamas que não cessam, minam num florescimento que surpreende. Basta querer olhar para as pedras que moldam a calçada. Se há algo que passa é porque a realidade não se viveu, apenas se esqueceu. Não sou assim, por isso nunca poderei estar bem. Quando os segmentos saem purificado de mim, sofre-se suspenso no incenso, não um sofrer normal, um sofrer divino, um sofrer de Alma. Tenta coisa por dizer e sentir, mas digo e sinto muitos pedaços. É pena que o mal esteja no tempo e....e....O que vai mal?

Abraço

Uma folha descaída – Viagem de Fogo

De manhã meus pés caminharam junto das paredes de pedra. Altas com as lágrimas a caírem dentro delas. Deixei os meus pés soltos, e ao avistar uma mulher junto da parede com o rosto em mar, pus a minha mão junto do pescoço dela passando suavemente, deslizei carinhosamente. Fixou-me o olhar de sangue, e afastei meu corpo da dor que na minha forma simples tentei apaziguar. É curioso como ultimamente prefiro sentir, dando somente um sopro de mim a pessoas desconhecidas.
Não é desta parte da viagem que esta folha descaída toca. É da viagem de regresso aos 3 meses de inferno e o resto de Inverno. O apito áspero das carruagens fez a sua marcha, subindo de volta ao interior. Escuro nas paisagens verdes, incrédulo no regresso. Nem as horas trocadas me fizeram desistir de prosseguir o caminho, a saltitar de carruagem em carruagem, com a brisa fresca dum livro – “Sputnik meu Amor”. Saiu um poema a saltitar nas palavras, uma folha que deixei na leveza de mãos desconhecidas. Aroma espalhado pelas vinhas que sulcam os frascos, em fragmentos que faço voar no vento do cavalgar. No fim do trilho sem saber por onde ir, sem puder esperar, caminhei pela estrada, pé atrás da água, mão atrás duma boleia. Percorri os fogos dos terrenos em carros de homens solitários, que fazem a sua vida na velocidade do tempo, na entrega sem olhar os grãos de cores que cobrem a paisagem. Penso eu: como sou fútil nas palavras que exprimo a estes homens... Mas a solidão deles é maior que a minha...
Chego ao abraço fraterno, de onde fiz parte da minha vida, onde não estava há meses. Na manhã seguinte estava eu a percorrer outros caminhos, de volta donde vim...Absorvi o que pude, não sei quando regressarei...Não sei...

Uma folha descaída – Trepadeira

Não entendo,
simplesmente não entendo.
Não é que não consiga sentir
este calor abafado a percorrer meu corpo,
não é isso que me faz flutuar nos sentidos.
São as paredes imóveis,
que não têm nada de estagnação,
reflectem para onde desejam,
ficam mudas nas suas irregularidades.
Não penetro onde não me querem,
certas audácias
não são permitidas
para eu pintar tantas cores.
Sei que os dias ficam
mais curtos a vislumbrar
o contorno das paredes.
Efeito Outonal com certeza.
Por vezes em salpicos,
vejo trepadeiras que se agarram nas pedras enroladas.
Paredes de vidro num opaco transparente,
linhas verdejantes com troncos finos,
quebrados pelo tempo
mas erguidos na modéstia.
São assim as paredes que me deixam confuso,
mas tão perplexo
que não dá para ter complexos.
O calor do sol na parede
apenas faz secar o belo esboço das trepadeiras,
e no horizonte de pétalas o olhar corre.
Um corrimento que dá para sentir o que não entendo.
E pergunto-me o que eu não entendo?
Não entendo o Verão,
porque simplesmente Amo o Outono.

Uma folha descaída – Chuva Miudinha

Cai a chuva miudinha no meu colo, entorpecida pela brisa suave. Contemplo os ponteiros dos relógios pendurados nas paredes, a ofuscar a minha camisa molhada, a contorcer o movimento árido do templo. As pessoas escorregam para os abrigos, e eu no meu canto vejo aproximar um cão que se aninha junto aos meus pés, lambendo-se. Sentir um ligeiro calor de Outono perto de mim, com os seus pelos castanhos a espalharem o odor das gotas de água. Este museu é uma bela sala de jantar, onde a embriaguez da visão se aconchega ao chapinhar. Borbulho nestes charcos, um sorriso numa mão e na outra, a sonata de ouvir pingar.
As nuvens têm o esboço dum castelo, ondulado, com tons dourados dum pincel. Arrepio-me ao ver o sol penetrar os trovões, mas o vento espalha seus cordéis e isso soa ao eco. Forte ou num sopro suave, são assim os contimentos de espreguiçar na chuva miudinha do Verão.
Abraço uma casa de soalho a estalar. Na entrada encontra-se umas cadeiras de barbeiro do início do século passado. Pelo que observo é para engraxar os sapatos, onde um homem aguarda com as revistas a esvoaçar ao lado, os clientes da manhã. Quando penetro no ventre da casa, grades de elevador faz-me lembrar uma cena do instinto fatal. Parece um labirinto de vielas, uma mansão escondida no meio da cidade, um antro de paredes esburacadas. Agrada-me até ouvir o bater da chuva nas janelas gradeadas. Cada passo que dou ao subir as escadas, o som parte-se debaixo de mim, mas não me deixa ir abaixo, bem pelo contrário. Entra dentro de mim, e eleva-se até as telas que me aguardam. Até cavaletes de cavalos que faltam pintar, ou simplesmente cores que se misturam contidos nos seus frascos. Um fresco orvalho, num canto escondido. Agradeço ao tempo...

Uma folha descaída – Brincar no Sono

Cheguei ao quarto com vontade de debruçar meu corpo nos lençóis. Abertos os pedaços de pano branco, a esperar o meu corpo leve por dentro, pesado nas suas ossadas. Acendo a luz com aquele clique tradicional, que faz com que o silêncio da noite seja perturbado. A iluminação deixa sombras nos cantos mais profundos, enquanto meus pés não martelam o rosto de cada linha feita pela luz. Essa perturbação bendita como sempre está lá, e que raramente esquece a tela que está pintada ali naquele canto. Até as sombras curvilíneas se modelam nos planetas, pintando tubos de visões que roçam as plataformas das viagens. É sempre sinal da busca insaciável duma mistura que alicia o tacto dos socalcos do quarto.
Dispo a roupa que transpira de chamas, e deito cada fragmento no sítio onde descai mais rapidamente. Ficam ondas de negro a pintalgar os pedaços de madeira envernizado, a cama do lado oposto à minha, a mesa e até o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Ponho o CD com Joy Division, e vou buscar a canção Dead Souls. Quero ouvir bater essa letra no meu coração. Ultimamente ouço-a sempre que saio de casa e chego. Uma rotina que deixou de ser algo fora de mim, mas que faz parte do meu eco. Deito-me nu nos lençóis estendidos, pingado com a água da torneira. Salpico-me, deixo salpicado o vazio em redor de mim. É como plantar uma planta na noite dos planetas. De repente, ouço a voz vir até ao meu cérebro: “andas muito caladinho”. Sinto a tua falta. E questiono-me, se isso não é evidente. Caio no sono, a serenar o sonho...Adormeço...

Uma folha descaída – Essência

Encontro ruas tecidas no mapa de teias, a caminhar pelo interior do lago. Até que num sobressalto, acordo com as mãos dormentes colocados sobre o meu peito. O meu coração explodiu por momentos, com batimentos fortes. Ainda vejo ao longe o vestido comprido a contornar a esquina mal eu bati à porta. Sonho que se têm, e só se compreende parte dos sentidos. Falta uma coisa que em pequeno fazia na altura das festas de verão, que me deliciava. Dava sempre uma volta quando chegava a altura de atirarem o fogo de artifício, e ia juntando as canas que caíam pelas vielas da vila ou da aldeia. Olhava sempre para cima na busca das luzes, na busca duma “seta” que ficasse junto a mim...
Certas coisas pingam na Alma e fazem-me questionar se quando se levita para o céu os pós mágicos, eles deviam orvalhar a espuma do mar? E a resposta é sempre a mesma. Devia sim. Devia quando a essência dos rasgos são verdadeiros, mas por vezes uma cor sobe para a montanha sem sentido, ou apenas com o sentido de pôr uma pincelada. E isso não chega para comprimir a Alma estendida. A mistura da cor que lá no alto se inverte, acaba contorcida na chuva que calca o interior do lago do meu sonho. Não me digam para não sonhar com a essência, porque esse será sempre o rumo mais puro. E eu gosto de rebentar nas cores, vendo a montanha, dançar nas nossas mãos, ouvir bailar a palavra, e tantas coisas que não deixo fugir de mim. Porquê? Simplesmente de quando a letra é pronunciada é sentida, e isso não fico na esquina do olhar. Para lembrar que estou onde a luz me deixa estar, onde a minha escuridão me consegue sublimar, faço penetrar os escorregadios mantos de pétalas.
Os olhos de fogo gemem nas cores perfumadas, sangram pintada nos vitrais, em arcos que no horizonte se guarda o baú de vestes. Vou buscar os arabescos que estão lá guardados. Letras e números que só os feiticeiros conseguem arranjar uns códigos para decifrar...
Hoje ouço Alleine Zu Zweit ao som da nossa dança...É magia sim, pura magia de mãos...Muito mais do que cores...

Uma folha descaída – Jangada

Ao longo da cordilheira, garras de galhos espalham-se no mar, a boiar na ondulação cortante dum suspiro transparente. O meu olhar toca esta visão, na poltrona de laços, a agarrar os grãos de areia num sopro, visível nas colinas dum sorriso. São lábios de sangue a escorrer de saudades, a saltitar pedaços de arrepios enrolados em madeira, que flutuam em flores de licor. Miragem ou aglutinação do sentir, não importa.
Os arcos da jangada vacilam nos segundos de levitação, por não querer resvalar nas falésias da água salgada. São momentos de condensação da brisa, que voam sem destino, com as asas quebradas, mas que em cada braço há força para juntar as porções do silêncio. Cuidar da irradiação que se move para um toque sincero, entre as armações da jangada, entre o roçar de silhuetas escondidas. Refrescar os remos isolados que animam as serpentinas dos balões encapuçados. Ir pela sombra, ir nos rios de luz, ir apenas no olhar, numa jangada. Estou aqui, sempre estive aqui...

Uma folha caída – Décimo oitavo conto de Amor (Outono)

Tudo isto devia ter sido dito pessoalmente, mas não posso fazer nada quanto não demonstras o querer de estar ao pé de mim. Sinto-me aprisionado pelo silêncio que nos envolveu, porque isto é um silêncio forçado que para mim não tem razão de ser. Quanto existe uma grande cumplicidade entre nós porque existe o afastamento? Dizes que não tens tempo mas isso é justificação para estarmos sem nos vermos há mais de 7 meses? Há sempre tempo quando se quer estar com uma pessoa que se gosta, mesmo que seja uma hora, e do pouco das férias que tiveste podias ter dito qualquer coisa, até mesmo um fim-de-semana, um dia da semana. Não percebo como podes dizer que gostas de mim e te afastares tanto de mim. Quando se gosta de alguém está-se com ela (eu ia a Lisboa para estar contigo, tu vinhas ao Porto para estares comigo, e na altura tinhas pouco tempo mas isso acontecia). Eu deixei a partir duma certa altura de dizer que quero estar contigo porque sempre recusavas, não sou de ferro para ouvir sempre um não. Estou sempre presente não abandonei a palavra por não te ver, não abandonei de sonhar contigo por não te ver, não fugi de tocar-te por não te ver, não diz que não queria dançar contigo por não te ver, nunca diz que não te amava por não estar ao pé de ti, nunca diz que não quero viver contigo...Infelizmente é preciso dizer os sentimentos para tu acreditares, não é uma questão de sentires como tu disseste uma vez, como ficou provado quanto há um tempo atrás voltei a dizer que te Amo. Não consegues ver através das palavras que te envio? Não consegues perceber isso através das palavras do blog? Não consegues ver no passado, nos toques, nas danças, na harmonia de viagens? Infelizmente não acreditas no que eu te disse uma vez, quanto sinto em absoluto algo, pronuncio, e é verdadeiro. Deste o princípio desconfias-te de mim, quanto me mandaste a primeira carta e disseste que eu tinha mentido em relação ao número da porta. Porque haveria do ter feito? Volto a não perceber isso. É preciso sempre ser “mau”, contrariar-te para te aproximares de mim? Volto a não perceber isso. Quanto te dizia coisas belas dizias que era exagerado, quanto comecei a dizer-te que não, é que te aproximaste de mim. E quando digo que te Amo e quero ser feliz contigo, tu não acreditas. Isso é normal?
É tão difícil estar ao pé de alguém que te Ama? Como se pode não desejar tanta magia que existe entre nós? Como não podes não tocar em palavras que te deixavam feliz? Como podes não deixar ver-te sorrir à minha beira? Como podes nunca dizer que tens saudades de mim? Como podes não dizer que sentes a minha falta? Como podes deixar o nosso abraço voar para longe? Como podes não dedilhar a nossa forma de brincar? Como podes não acreditar em nós? Será tão profundo sentires a palpitar meu ser e dizê-lo? Porquê deixar os rasgos de beleza tão longe de ti?
Está sempre a sair alguns números, em todas as ocasiões quando acontece uma extracção. Porque será? (10-23-32-35-40-47 /// 1-19-27-28-41-43). Porque chove miudinho quando passo em determinados locais? Há coisas que acontecem porque são verdadeiras, apenas uma questão de querer ver e acreditar. Acreditas? Vês? O “tudo passa” que tu dizes não existe quando se sente ao fundo os sentimentos.
Há coisas que me magoam, e o silêncio é uma delas. Eu sempre exprimo sentimentos, e das tuas palavras só saem pós sem tempero, poucos pigmentos. Não vale a pena exprimir algo mais profundo comigo, não é? E como pode um vulcão como tu não exprimir sentimentos e estar sempre contida? Não dá para perceber isso. Disseste que querias uma amizade comigo, e é isso que hajas que é uma amizade? Algo completamente destemperado. Não fomos feitos um para o outro para termos uma amizade. Somos muito mais que isso. Ou achas que não há magia entre nós para muito mais? Não dá para perceber um não a esta pergunta, quanto te afastas das minhas mãos, do som das nossas peles, do sentir da Alma que nos envolve, do pingar das conchas que desbotam das tempestades...É tão difícil ler-me e perceber que escrevo para mim, que escrevo também pensando em ti? Não me afastei disso, não me afasto disso. Porquê? É fácil perceber porquê, e não tem nada haver com “compreensão ou respeito” como tu disseste, mas sim com o sentir e tocar a Alma. Se aí estremeceres e sentires o arrepio estimulado de evoluir perceberás o que sinto por ti. Estou a falar da ESSÊNCIA. Tens muitas vivências, umas boas, outras más, mas ainda não te apercebeste que quando se tem uma essência na palma das mãos, jamais se interrompe o curso das águas, jamais se faz o rio correr doutra forma, jamais se quer deixar de voar fora desse ninho...
Sinto demasiado tristeza em não ouvir-te, e isso não quer dizer que não fale com mais gente, mas tu para mim és uma pessoa especial, a única mulher que diz que Amo e que assim sinto. Teres mandado uma sms de apoio no dia 15 teria tido muito significado para mim, mas nem isso fizeste. Como de teres passado na minha terra e não me teres dado boleia até lá, sabendo as minhas dificuldades em lá ir....Enfim...Digo o que sinto e isso sempre o faço. Amo-te e continuo a Amar-te pelo que tu és, e o que posso fazer com esse tipo de sentimento? O que posso fazer em desejar-te para além das minhas próprias fronteiras? De querer tanto lutar por nuvens em que se possa saltitar, torcendo e moldando o futuro?...
Vejo o meu olhar no espelho, numa calma sem pousio. Sou sempre da mesma maneira; uma mobília antiga que permanece igual no seu canto. Sou fiel aos meus sonhos, enternecido nos teus braços, na tua leveza...

Quero-te a dedilhar o orvalho
A tocar as chamas do pingar...
Quero que o tempo seja nosso,
Pousado nas nuvens de fogos...
Dançar entre mantos
De mãos ciganas,
A contorcer o frasco
De odores frescos
Para aperfeiçoar a chuva miudinha no colo,
A embalar trovões de pétalas
Ouvir o borbulhar das mãos que acariciam a Alma...
Amo-te...

E o som do sentir espalha-se no dorso do vento, a pernoitar em cada socalco debruçado, a refrescar cada pétala de magia...Uma brisa que encostada rasga pigmentos de cores, diluindo-se no tempo...O encontro da essência, o encontro do trajecto, o encontro de delirar a espuma de fatias trincadas...Abraço-te na Alma...