Wednesday, September 20, 2006

Uma folha descaída – Natureza Selvagem

Na parede do quarto elevo o som do CD. A música fura as línguas sagradas do tempo, a verter os pedaços do odor da noite. As horas cortam a navalha das letras com pinceladas de algodão, na homenagem do virgem perfume. Inalo o vento à janela, as estrelas caem nos meus cabelos. Arrasto o charuto pelo fumo a esvoaçar no calor retido do dia. Sento-me na cadeira a vibrar, ao olhar o quadro. Os rasgos das cores espalham-se no infinito do olho, arde o sangue negro nos cantos da tela, o fundo vermelho de raios solares, caio fundo, defunto na vida. A garganta arranha da febre na testa, o calor sobe pelo corpo seminu. Extraio uma colecção de cassetes cheias de pó num poço pouco profundo de sons. Começo a ouvir uma à uma. O som distorcido parece que apagou a memória das notas tocadas a décadas atrás. O antiquado foi riscado, apagado sem eu me ter apercebido. Deixei-as guardadas a um canto, e quando queria que elas me penetrassem no interior já elas não estavam prontas para ser ouvidas. Das cassetes que tenho, 4 delas foram-se. Pego nelas, puxo-lhe as fitas, e adorno o quadro em teias que cobrem de lado a lado cada espaço do dormitório. Como gostaria de ser uma aranha para poder caminhar por estas veias traçadas neste labirinto. Em cada cruzamento há uma possibilidade de ir ao outro lado do quarto. Fenomenal...
A minha tosse começa a incomodar-me, nem o chá de tília fez efeito. Talvez um leite quente ao cair da noite me adoce as tripas. A terra do germinar apadrinha o manto que vai acolher minhas filhas. Ainda pensei ir ao cemitério recolher lá a terra, mas ainda me nasciam abutres sem asas. Ponha minhas mãos junto à terra, escavo pelo meio furando até ao fundo do saco. Retiro-as suavemente, deslizando os dedos na leiva. Pouso incenso junto à terra, enterrando o pau lá dentro na esperança de perfuma-la num aroma característico. Tenho o corpo dorido, a alma espessa, o ar a regar o fumo do leito. Um novo dia virá e novos escravos de demónios virão.

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