Wednesday, September 20, 2006

Uma folha descaída – Chuva Miudinha

Cai a chuva miudinha no meu colo, entorpecida pela brisa suave. Contemplo os ponteiros dos relógios pendurados nas paredes, a ofuscar a minha camisa molhada, a contorcer o movimento árido do templo. As pessoas escorregam para os abrigos, e eu no meu canto vejo aproximar um cão que se aninha junto aos meus pés, lambendo-se. Sentir um ligeiro calor de Outono perto de mim, com os seus pelos castanhos a espalharem o odor das gotas de água. Este museu é uma bela sala de jantar, onde a embriaguez da visão se aconchega ao chapinhar. Borbulho nestes charcos, um sorriso numa mão e na outra, a sonata de ouvir pingar.
As nuvens têm o esboço dum castelo, ondulado, com tons dourados dum pincel. Arrepio-me ao ver o sol penetrar os trovões, mas o vento espalha seus cordéis e isso soa ao eco. Forte ou num sopro suave, são assim os contimentos de espreguiçar na chuva miudinha do Verão.
Abraço uma casa de soalho a estalar. Na entrada encontra-se umas cadeiras de barbeiro do início do século passado. Pelo que observo é para engraxar os sapatos, onde um homem aguarda com as revistas a esvoaçar ao lado, os clientes da manhã. Quando penetro no ventre da casa, grades de elevador faz-me lembrar uma cena do instinto fatal. Parece um labirinto de vielas, uma mansão escondida no meio da cidade, um antro de paredes esburacadas. Agrada-me até ouvir o bater da chuva nas janelas gradeadas. Cada passo que dou ao subir as escadas, o som parte-se debaixo de mim, mas não me deixa ir abaixo, bem pelo contrário. Entra dentro de mim, e eleva-se até as telas que me aguardam. Até cavaletes de cavalos que faltam pintar, ou simplesmente cores que se misturam contidos nos seus frascos. Um fresco orvalho, num canto escondido. Agradeço ao tempo...

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