Wednesday, September 20, 2006

Uma folha descaída – Suaves Toques

As bolas batem no eco da sala. Os tacos deslizam por cima do tapete. Um som quente invade as sete mesas, onde as cores das bandeiras descaem na bancada. O estalar contínuo dos dedos perpetua o giz nos tacos. Sente-se os segundos a reterem o tempo. Relógios que no seu compasso descem, e sobem nos pés que passam pela carpete.
Três bolas em cada bilhar, dos quais alternadamente se joga. Naqueles que estão vazios a sombra dispõem-se ao comprido na mesa onde as bolas, vermelha, branca e amarela, são iluminadas num quadrado. Traços bem definidos de contacto intimo, a espectacularidade do roçar da essência.
Movimentos sensuais na delicadeza do “suspense”. O toque masturbativo a deslizar no comprimento do taco. Dentro das almas os corações ecoam, na transpiração húmida da água a arder pelo interior. O deslize da suavidade, do toque de acariciar os pedaços esféricos, no retorno abrasador das luzes que queimam a partir do tecto da sala.
As pessoas ficam com os olhos retidos na mesa número 3, onde joga um Português, Mário seu nome. Homem com pelo menos 60 anos, calvo, com ar Britânico do século XIX. Transpiro nas suas faces o espelhar da angústia de vencer. Seu adversário, um Turco de feições elegantes, com um toque nos efeitos na bola que me surpreende. As bolas dele contorcem-se, a desejar que uma mulher o leva a entregar-se, um rolar de melodia. Não gosto de turcos, mas simpatizo com este…
As bolas fogem no buraco da agulha, ouvindo o fumo a tilintar nas esferas. Outras esbatem no bater da sorte. O vibrar do Amor dos tacos a espirrar, em cada posição sentir o prazer, do dorso se aninhar junto ao taco, penetrar os segundos de harmonia. O “Britânico” vence com o trevo de quatro folhas na mão.
As bancadas estalam de euforia, no rebuliço da multidão, o balbuciar de sons levantam as ossadas dos acentos. Deixo meu corpo repousar no vazio da sala com as luzes a submeterem-se à escuridão. Fora da sala os corpos estremecem nas variadas línguas, nos cigarros que me fazem lembrar o sabor dos lábios do meu prazer…Aguardo que o silêncio se ponha nos corredores do êxtase...Aguardo relaxando a mão na tinta que corre, mas o contínuo levitar continua, na incessante pureza de não haver barreiras em ouvir a musica.
As notas de leveza adocicam a escuridão da sala. Pego nas amêndoas de chocolate, para desfrutar na língua enlaçada a mistura. Enrolo o som musical no visionar das arestas dos quadrados com as bolas no seu centro. Sonho em esticar os braços do desejo até à mesa…Rasgo-me para fora da sala com a minha mochila. Dou uma vista de olhos pelos panfletos. Um empregado tem os olhos postos na mochila...Meu ar de cigano acusa-me…Tenho uma bomba…no coração…

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