Wednesday, September 20, 2006

Uma folha descaída – Piscar os Pés

Atrai-me árvores dispostas em linha em ambos dos lados duma avenida. Uma coloração de verdes claros e escuros que a Primavera promete todos os anos dar. Acompanhado com um sol matinal marcho neste sossego, afunilando cada artéria, percorrendo com os olhos as fachadas. Finalmente soube onde era a PIDE no Porto, transformado num Museu militar onde em exposição no jardim se encontram canhões do século XVII. Sempre me fascinou, mas num contexto diferente, os homens balas do circo. Estar metido dentro dum espaço tão minúsculo e depois ser libertado, projectado para voar, para rasgar o ar. Uma sensação de nadar fora da água, mergulhar em tonalidades de azulejos espalhados no chão.
Pela rua fora observo a depilação do peixe feitas por mulheres vestidas tradicionalmente. Em aventais de quadrados espaçados, com um bolso à frente onde guardam o dinheiro. Sardinhas, solhas, enguias...Na janela um gato aproveita os raios de sol, lambendo-se a esquartejar cada membro. Da parte de fora as pombas amontoam-se no beiral do telhado, até que uma esvoaça até à janela onde está o gato, na parte de dentro. A pomba descontraída começa a picar a madeira adjacente à janela sem se importunar com o gato. Uma simbiose difícil, e conseguida apenas devido a uma barreira. Se calhar se não tivesse essa barreira o gato aconchegava suas garras ao pescoço da pomba para lhe fazer umas festinhas. Mas como já vi gato e cão comer juntos, não me admirava nada a coabitação entre uma pomba e um gato, depende sempre da fome ou ausência dela.
Repouso junto ao Repouso, nuns bancos a olhar as palmeiras no céu azul que aos poucos o cinzento das nuvens abocanha. As famosas gotas de água que vem sempre na recordação. Continuo a minha caminhada, de percurso pouco definido até me enfia num elevador. A primeira porta fecha-se, a segunda deixa-me sem ver o exterior. Subo até ao quinto andar....Fico preso...

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